Línguas estrangeiras para todos

Grupo de pesquisa associa método de ensino de línguas a tecnologia Uma pessoa é fluente em inglês, outra em português. As duas decidem se encontrar semanalmente para conversar e trocar informações utilizando alternadamente cada língua. Essa interação e o desejo mútuo de aprender a língua alheia promovem a aquisição de um idioma estrangeiro por meio de um contexto de aprendizagem conhecido por in-tandem.

O grupo coordenado pelo professor João Alves Telles, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campi de Assis e de São José do Rio Preto, associou o sistema a tecnologias digitais para ensino a distância, ampliando o alcance e as possibilidades de se aprender um novo idioma.

Iniciado em maio de 2007 e com encerramento previsto para abril deste ano, o Projeto Temático “Teletandem: línguas estrangeiras para todos”, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de SP (Fapesp), reúne estudantes de pós-graduação dos campi de Assis e de São José do Rio Preto da Unesp.

A experiência envolve brasileiros, selecionados entre alunos da Unesp, e estrangeiros interessados em aprender português. Para isso, a instituição paulista contatou departamentos de língua portuguesa de Universidades de diversos países.

Participaram da pesquisa instituições da Alemanha, Argentina, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, México, Uruguai e Suécia, compreendendo nativos ou fluentes em cinco idiomas: alemão, espanhol, francês, inglês e italiano. “Uma grande dificuldade que encontramos é que muitos departamentos de português no exterior enfocam a literatura e não se interessaram no aprendizado da língua”, disse Telles.

Por meio de parcerias, foram formadas duplas entre alunos da Unesp e estudantes das instituições estrangeiras interessados em aprender português. Cada dupla se comprometeu a participar de, no mínimo, oito encontros virtuais de duas horas cada, uma hora para cada idioma.

Os alunos interagiram por meio do software de comunicação Skype associado ao programa TalkAndWrite,  desenvolvido no Brasil pela empresa catarinense Midi.

O Skype provê a comunicação por voz e faz a transmissão da imagem dos participantes por meio de webcams. O aplicativo de anotações TalkAndWrite disponibiliza um quadro virtual interativo no qual ambos os participantes podem escrever, desenhar e editar as intervenções do parceiro.

Professor presente

No Teletandem, a figura do professor não desaparece. Ele acompanha todo o processo, mediando a aprendizagem por meio de reuniões realizadas a cada três semanas com as duplas. Os encontros podem ser presenciais ou virtuais.

Segundo Telles, essa presença é necessária porque os alunos costumam utilizar somente de 30% a 40% dos recursos de aprendizagem. “Além disso, é o professor que auxilia os interagentes nas explicações sobre as línguas e sugere estratégias para agilizar o processo de aprendizagem”, explicou.

Conselho é a palavra certa. Diferentemente de métodos tradicionais e outros contextos de ensino e de aprendizagem, no Teletandem o professor não determina o roteiro do aprendizado, mas sim coloca sugestões e são os alunos que escolhem o que fazer.

Algumas sessões são gravadas e servem de subsídio para o docente detectar problemas e dificuldades. “O professor atua como mediador, em sintonia com uma visão socioconstrutivista e vygotskyana de desenvolvimento. O centro do processo de aprendizado é o aluno”, disse Telles, ressaltando a diferença entre o contexto in-tandem e o ensino convencional dado em sala de aula.

Justamente por focar a atuação do aluno, o programa é fundamentado na autonomia e na reciprocidade dos participantes. “Esse é um dos motivos pelo qual esse método não funciona quando adotado como disciplina obrigatória em cursos de graduação”, apontou.

Outra diferença do tandem é que o currículo emerge das relações e interações entre os pares e só depois é levado ao professor. No ensino tradicional, o programa segue o caminho inverso: é predeterminado pelo docente e aplicado posteriormente em sala de aula.

Choques culturais

Para que o aprendizado seja bem-sucedido, os candidatos a participantes devem passar por sessões de orientação prévias. “Nesse ponto são tratados alguns problemas como choques culturais a serem evitados”, contou o professor da Unesp.

Por outro lado, quando laços de amizade são construídos, os resultados costumam ser surpreendentes. Vários alunos do programa tornaram-se fluentes na língua-alvo após dois anos de encontros.

Telles ressalta o aspecto social do projeto. “O Teletandem permite que estudantes com poucos recursos possam aprender uma língua e conhecer pessoas de outros países”, disse.

Segundo ele, o contexto de aprendizagem em tandem pode ser perfeitamente aplicável em escolas regulares, desde que seja bem assessorado e conte com infraestrutura mínima. No caso da Unesp, são disponibilizados laboratórios das 9h às 21h, com computadores equipados com softwares e periféricos adequados.

O projeto foi tão bem-sucedido que a Unesp manterá o desenvolvimento do software TalkAndWrite por meio de uma parceria com a empresa Midi. O objetivo é fazer com que o programa também sirva de ferramenta de comunicação entre os participantes.

Telles tem viajado para vários países para apresentar resultados das pesquisas e divulgar as experiências e resultados do Projeto Temático. “O Teletandem é um meio de democratização e de acesso às línguas estrangeiras por meio de tecnologias de comunicação e pode ajudar especialmente os mais pobres que não têm condições financeiras de viajar para aprender os idiomas, de fazer amigos estrangeiros e ter experiências interculturais enriquecedoras e formadoras”, destacou.

Teletandem: www.teletandembrasil.org/home.asp
(Fábio Reynol, Agência Fapesp, 9/2)
JC e-mail 3947, de 09 de fevereiro de 2010

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