Universidade de Georgetown contrata Uribe, ex-presidente da Colômbia. Jesuítas reagem

Na semana passada, alguns de nós ficamos sabendo que a Universidade de Georgetown contratou o ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe,como professor na sua Walsh School of Foreign Service. Uribe, que está ligado aos paramilitares que massacraram milhares de inocentes e que favoreceu traficantes de drogas – trazendo-os para a vida política – foi nomeado Especialista Distinto na Prática da Liderança Global da Georgetown. Ele começou a trabalhar no dia 8 de setembro.

A análise é do padre jesuíta norte-americano John Dear, ativista da paz e autor de mais de 20 livros sobre paz e não violência. O arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu indicou o jesuíta para receber o Prêmio Nobel da Paz. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 07-09-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto e revisada pela IHU On-Line.

Aparentemente, nem o reitor da universidade nem os membros da faculdade nem os jesuítas estavam informados de que alguns advogados estão trabalhando para apresentar acusações contra Uribe no Tribunal de Haia por violações dos direitos humanos. A Georgetown poderia muito bem ter convidado Marcos, das Filipinas, Somoza, da Nicarágua, ou Charles Taylor, da Libéria, para lecionar.

Eu não deveria estar surpreso com isso. A Georgetown, em particular, tem uma longa história de apoio às guerras dos EUA. Recebeu milhões de dólares do Pentágono, treinou milhares de jovens católicos em seu programa ROTC [Reserve Officers Training Corps], contratou Henry Kissinger, acolheu a pessoa que ordenou o assassinato do arcebispo Oscar Romero e apoiou promotores de guerras, do Xá do Irã a Ronald Reagan.

Os estudantes e professores da Georgetown, durante muitos anos, se somaram à campanha para fechar a Escola das Américas, em Fort Benning, na Geórgia, que nestes dias treina predominantemente oficiais militares e soldados da Colômbia, sob o pretexto de combater o terrorismo. Muitos desses soldados, então, voltam aos seus países e participam de esquadrões da morte paramilitares para matar e torturar pessoas inocentes. Eu esperava que o reitor, os professores e os jesuítas da Georgetown soubessem melhor antes de acolher Uribe a unir-se às suas fileiras.

“Esperamos que o presidente Uribe se una à nossa comunidade universitária”, disse recentemente o reitor da Georgetown, John DeGioia, em um comunicado. “Ter um líder mundial tão distinto em Georgetown irá promover o importante trabalho de estudantes e professores que se engajam em importantes questões globais”.

É essa a sua ideia de um líder mundial? Com tantos heróis da paz e da não violência para convidar – do arcebispo Tutu a Mairead Maguire, ou líderes aqui dos EUA, como Kathy Kelly e Jim Wallis –, estou pasmo pelo fato de ele esperar pela chegada de um dos mais notórios assassinos em massa do mundo. É esse o tipo de liderança global que a Georgetown ensina?

“O presidente Uribe trará uma perspectiva verdadeiramente única para a discussão de questões mundiais na Georgetown”, disse Carol Lancaster, diretora da Walsh School of Foreign Service. “Estamos muito contentes pelo fato de ele ter identificado a Georgetown como um lugar em que irá partilhar seu conhecimento e sua interface com Washington, e eu sei que os nossos estudantes da School of Foreign Service irão se beneficiar enormemente com a sua presença”.

Meus amigos e eu temos pedido aos líderes da Georgetown que desconvidem Uribe e também começamos uma campanha de protesto contra a sua presença. Eu, pessoalmente, pedi por telefone que a diretora Lancaster que faça tudo o que puder para evitar a chegada de Uribe. Para minha decepção, quase todos com quem eu falei da Georgetown parecem saber pouco sobre a Colômbia ou sobre Uribe e fazem referência ao respeito do Departamento de Estado por ele.

Digo isso sem exagero. Esse deve ter sido seu primeiro aviso.

Nós todos precisamos ficar sabendo sobre os oito anos de mandato de Uribe na Colômbia, sua corrupção, as violações dos direitos humanos que ele promoveu e a impunidade generalizada. Em junho de 2009, o Human Rights Watch divulgou uma carta aberta ao presidente Obama, listando algumas das violações dos direitos humanos do governo Uribe:

•    Mais de 3 milhões de colombianos (de uma população de cerca de 40 milhões) foram forçados a fugir de suas casas, dando à Colômbia a segunda maior população de pessoas internamente deslocadas do mundo, depois do Sudão.

•    Mais de 70 membros do Congresso colombiano estão sob investigação criminal ou foram condenados por supostamente colaborarem com os paramilitares. Quase todos esses congressistas são membros da coalizão do presidente Uribe no Congresso colombiano, e o governo Uribe repetidamente prejudicou as investigações e desacreditou os juízes da Suprema Corte da Colômbia que lhes haviam iniciado.

•    A Colômbia tem a mais alta taxa de assassinatos de sindicalistas do mundo.

•    Uma vala comum clandestina de 2 mil corpos não identificados foi recentemente descoberta junto a uma base militar em La Macarena, na Colômbia central. Quando a notícia se tornou pública, Uribe viajou para Macarena e disse publicamente que acusar as forças armadas dos abusos aos direitos humanos era uma tática usada pelos grupos guerrilheiros. Esses comentários colocam a vida das vítimas que falaram durante o evento em um grave perigo.

•    A partir de 2008, apareceram relatos de que os militares colombianos estavam atraindo jovens pobres a saírem de suas casas com promessas de emprego, matando-os em seguida e apresentando-os como vítimas de combate. Essa prática não apenas serviu para empilhar as estatísticas de batalha, mas também beneficiou financeiramente os soldados envolvidos – já que o governo Uribe, desde 2005, atribuía prêmios monetários e bônus de férias por cada insurgente morto. Grupos de direitos humanos indicam 3 mil ou mais “falsos positivos”.

A nomeação de Uribe à Georgetown é “vergonhosa”, disse o teólogo jesuíta Jon Sobrino, na semana passada, em El Salvador. “Uribe é um símbolo do pior que já aconteceu no trágico conflito da Colômbia. Há muito sangue envolvido aqui, muito mesmo”.

“Será que essa nomeação reflete a missão e a identidade católica e jesuíta da Georgetown?”, escreveu o Pe. Dean Brackley, professor jesuíta da Universidade Centro-Americana do El Salvador. Ele continua:

“Isso, literalmente, vai causar escândalo. O Congresso dos EUA aprovou o acordo de comércio com a Colômbia, porque é um lugar onde o governo, sob Uribe, tem falhado constantemente para defender os sindicalistas dos esquadrões da morte. Uribe é amplamente acusado de ter tido relações diretas com os grupos paramilitares que massacraram inúmeros inocentes. Quer as acusações sejam verdadeiras ou não, ele irresponsável e cruelmente acusou os ativistas de direitos humanos da Colômbia de conluio com ‘terroristas comunistas’, pondo em perigo suas vidas”.

Alguns anos atrás, eu viajei para a Colômbia para ver pessoalmente a situação local. Lá, soube sobre a guerra  contra os pobres, apoiada pelos EUA,  travada por Uribe, sob o pretexto da “guerra contra as drogas”. Soube como o repressivo governo colombiano, sob o presidente Uribe, democraticamente eleito mas ditatorial, matava cerca de 10 mil pessoas por ano – tendo deixado 200 mil mortos nos últimos 20 anos. Essa guerra não tem a ver com as drogas, mas com a expropriação das ricas terras e dos recursos naturais da Colômbia dos povos indígenas para os EUA e corporações multinacionais.

Em Bogotá, na Colômbia, eu conheci uma das principais vozes do mundo pelos direitos humanos: o Pe. Javier Giraldo, jesuíta, cuja Comissão Inter-Religiosa Justiça e Paz tem documentado todos os assassinatos e massacres na Colômbia. Por causa de seus esforços, ele sofreu inúmeras ameaças de morte, especialmente sob o regime de Uribe. Na semana passada, Giraldo me escreveu sobre a situação, e eu partilho a sua carta aqui, para que todos possamos saber sobre a Colômbia e a desgraça da contratação de Uribe para a Georgetown:

“Escrevo para você com grande preocupação com relação ao fato da Georgetown, a nossa universidade jesuíta, ter contratado o ex-presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, como professor. Constantemente, estou recebendo mensagens de pessoas e grupos que sofreram enormemente durante o seu mandato como presidente. Eles protestam e questionam a mentalidade da nossa sociedade, ou a sua falta de julgamento ético na tomada de uma decisão desse tipo.

É possível que os tomadores de decisão da Georgetown tenham recebido avaliações positivas de colombianos em altos cargos políticos ou econômicos, mas é difícil ignorar, pelo menos, as intensas divergências morais levantadas pelo seu governo e pelas investigações e sanções impostas por organizações internacionais, que tentam proteger a dignidade humana. O simples fato de que, durante sua carreira política, quando ele era governador da província de Antioquia (1995-1997), ele tenha fundado e protegido tantos grupos paramilitares, conhecidos eufemisticamente como ‘Convivir’, que assassinaram e ‘desapareceram’ milhares de pessoas e desalojaram multidões, cometendo muitas outras atrocidades, que, por si sós, implicam na necessidade de censura moral antes de confiar-lhe qualquer responsabilidade no futuro.

Mas ele não apenas continuou patrocinando esses grupos paramilitares, mas também defendeu-os e aperfeiçoou-os em um novo padrão de paramilitarismo legalizado, incluindo redes de informantes, redes de colaboradores e a nova classe de empresas de segurança privadas, que envolvem alguns milhões de civis em atividades militares relacionadas ao conflito armado interno, enquanto, ao mesmo tempo, ele estava mentindo à comunidade internacional com uma falsa desmobilização dos paramilitares.

Além disso, a prática escandalosa dos ‘falsos positivos’ ocorreu durante o seu governo. A prática consiste em matar civis, geralmente agricultores, e, depois de matá-los, vesti-los como combatentes, a fim de justificar suas mortes. Assim foi como ele tentou demonstrar falsas vitórias militares sobre os rebeldes e também eliminar os ativistas dos movimentos sociais que trabalham pela justiça.

A corrupção durante o seu governo foi mais do que escandalosa, não apenas por causa da presença de traficantes de drogas em cargos públicos, mas também porque o Congresso e muitos gabinetes do governo foram ocupados por criminosos. Hoje, mais de uma centena de membros do Congresso estão envolvidos em processos criminais, todos apoiadores muito próximos do presidente Uribe.

A compra de consciências, a fim de manipular o aparato judicial, foi vergonhosa. Ela acabou destruindo, no nível mais profundo, a consciência moral do país. Outra desgraça foi a forma corrupta pela qual os ministros mais próximos dele manipularam a política agrícola, de modo a favorecer os muito ricos com dinheiro público, impedindo e estigmatizando, enquanto isso, projetos sociais. A corrupção de seus filhos, que enriqueceram a si mesmos usando as vantagens de poder, escandalizou o país inteiro de uma só vez.
Além disso, ele usou a agência de segurança que estava diretamente sob o seu controle (o Departamento de Segurança Administrativa) para espionar os tribunais, os políticos da oposição e os movimentos sociais e pelos direitos humanos, por meio de escutas telefônicas clandestinas. As maquinações corruptas que ele usou para conquistar a sua reeleição como presidente, em 2006, foram sórdidas ao extremo, com o resultado de que os ministros e colaboradores mais próximos foram parar na prisão.

Ele manipulou a coordenação entre o Exército e os grupos paramilitares que resultou em 14 mil execuções extrajudiciais durante o seu mandato. Suas estratégias de impunidade por aqueles que, por meio do governo ou do ‘paragoverno’, cometeram crimes contra a humanidade vão ficar na história por seu desaforo.

A decisão dos jesuítas da Georgetown de oferecer uma cátedra para Álvaro Uribe não é apenas profundamente ofensiva para os colombianos que ainda possuem princípios morais, mas também coloca em grande risco o desenvolvimento ético dos jovens que frequentam a nossa universidade em Washington. Onde está a ética da Companhia de Jesus?”

A questão final de Javier me deixou tremendo.

Convoco as pessoas de todos os lugares a ligar ou a escrever para o reitor da Universidade de Georgetown e protestar contra a presença de Uribe no campus – e para pressionar a Georgetown a cortar seus laços com os ditadores, promotores de guerras e o Pentágono. Para mais informações, visite a página do Observatório da Escola das Américas (www.soaw.org) e do Colombia Support Network (www.colombiasupport.net).

Lamento que nossa luta para acabar com a guerra e a injustiça é muitas vezes impedida pela própria Igreja e, neste caso, pela minha própria ordem religiosa. Mas estou animado com a reação de muitas pessoas e com a organização que surgiu ao redor desse escândalo. Espero que um dia a Universidade de Georgetown e cada instituição católica jesuíta e católica se torne uma escola de justiça, de não violência e de direitos humanos.

Fonte: IHU Online

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