Supremacistas dos EUA torturam e matam imigrantes no deserto

Uma sensação estranha toma conta de quem chega à passagem de San Ysidro. De um lado está a Califórnia, Estado mais rico dos EUA. Do outro, Tijuana, cidade-problema com fama de ser a bomba-relógio do México. Todas as noites, perto dali, um infame jogo de gato e rato ocorre no deserto.

A reportagem é de Cristiano Dias e publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 21-11-2010.

Imigrantes que fogem do implacável controle da fronteira são caçados por membros do Minuteman, milícia de extrema direita que sequestra, tortura e mata latinos que tentam entrar no país. O Estado conversou com alguns protagonistas de uma guerra permeada de violações de direitos humanos na fronteira mais cruzada do mundo. Por razões de segurança, principalmente porque muitos ainda vivem na clandestinidade, a verdadeira identidade dos entrevistados foi omitida.

A vítima mais recente dos abusos é Alfonso Hernández, de 24 anos, filho de imigrantes salvadorenhos, mas nascido nos EUA. Há duas semanas, ele foi sequestrado em uma rua de San Diego por membros do Minuteman. Com os olhos vendados, amarrado e amordaçado, foi jogado em uma van. Em seguida, foi levado para um terreno baldio nos arredores da cidade e brutalmente espancado por homens brancos e uma jovem com sotaque mexicano.

Depois da sessão de tortura, ele recebeu sua sentença de morte. Um dos homens deu a ordem para que a jovem o executasse com golpes de facão. “Não precisa. Ele já está morto”, foi a resposta que ouviu, antes de perder os sentidos. Algumas horas depois, com o corpo tomado por hematomas e coberto de sangue, Hernández perambulou como um morto-vivo até chegar a um hospital de San Diego.

Uma semana após o trauma, ele denunciou o caso à ONG Border Angels (Anjos da Fronteira), que presta serviços à comunidade latina e defende os direitos dos imigrantes ilegais. Um dos projetos mais importantes da ONG é levar água para salvar a vida daqueles que se arriscam a cruzar o deserto em busca do sonho americano.

Dar água a um ilegal ou ajudá-lo diretamente, porém, é crime nos EUA. Por isso, os voluntários abandonam os barris em descampados áridos na esperança de que sejam encontrados por grupos de imigrantes a ponto de morrer de sede. Os cilindros são cravados com uma bandeira vermelha para que possam ser avistados de longe – alguns têm uma luz no alto do mastro para serem vistos na escuridão.

Nova Ku Klux Klan

É no momento de maior vulnerabilidade que os milicianos do Minuteman atacam. Na calada da noite, eles caçam os imigrantes e os barris deixados pelos Anjos da Fronteira. No dia seguinte, voluntários da ONG comemoram quando encontram o recipiente vazio, ao lado de vestígios de roupas ou de um bilhete de agradecimento. Algumas vezes, contudo, os tonéis de água aparecem destroçados pelos facões dos supremacistas brancos.

O Minuteman – o nome deriva das milícias que demoravam apenas um minuto para se apresentar à luta contra os britânicos na Guerra de Independência dos EUA (1775-1783) – foi fundado em 2005 para ajudar no policiamento dos 3.200 quilômetros da fronteira com o México.

Um de seus fundadores, Jim Gilchrist, descreve o grupo como uma espécie de “polícia comunitária”. Os líderes hispânicos da Califórnia, no entanto, consideram o bando uma nova versão da Ku Klux Klan que se especializou em ataques contra imigrantes latinos.

“Eles são a maior ameaça aos direitos humanos na região da fronteira”, diz Isabel. De acordo com ela, o drama dos imigrantes foi desumanizado e é ignorado pela maioria dos americanos, que perderam a dimensão da gravidade do problema.

Intolerância

A indiferença fez Rosana López passar por um drama pessoal no mês passado. Aos 17 anos, ela está desde os 2 nos EUA. Seus pais vieram de Ciudad Juárez, no México, e vivem ilegalmente em Oklahoma City, capital de um dos Estados mais conservadores do país. Filha única, é uma aluna brilhante da Santa Fe South School. Os EUA são o único país que Rosana conhece. Ela fala espanhol, mas prefere o inglês, que aprendeu na escola e com os amigos.

No último domingo de outubro, sua mãe dirigia por uma das principais estradas do Estado. Rosana estava no banco de trás com o pai, que teve um enfarte. Desesperada, pediu ajuda a um patrulheiro, que percebeu que a família estava ilegalmente nos EUA. Os pedidos de socorro foram solenemente ignorados pelo policial, que impediu que seu pai fosse enviado para um hospital. “Vamos resolver isso aqui e agora”, repetia.

Desesperada, ligou para o 911 (número de emergência nos EUA) e chamou uma ambulância. Assim que a equipe médica chegou ao local, o policial percebeu que havia passado dos limites. O pai foi salvo e graças a uma decisão judicial a família ainda vive em Oklahoma.

A Santa Fe South está carregada de dramas parecidos com o de Rosana. A maioria dos alunos – cerca de 80% – é de origem hispânica, principalmente de mexicanos que fugiram da violência do outro lado da fronteira. “O estresse e a pressão pelos quais passam essas crianças são insuportáveis”, afirma Chris Brewster, superintendente da escola. “O maior medo é voltar para a casa e não encontrar os pais, que podem ser presos e deportados a qualquer momento.”

Tráfico de crianças

No total, apenas na passagem de San Ysidro, fronteira de San Diego com Tijuana, 43 pessoas são deportadas diariamente. Em todo o país, foram 392 mil deportações no ano passado – incluindo crianças. O destino delas é sombrio. São enviadas a albergues, orfanatos ou acabam parando no Sistema Nacional para o Desenvolvimento Integral da Família (SNDIF), órgão do governo mexicano encarregado de prestar assistência social a menores e devolvê-los à família. Pelo menos na teoria.

O SNDIF é um das agências estatais mais corruptas do México. Para reforçar a caixinha, é comum que funcionários vendam as crianças e muitas acabam nas mãos de narcotraficantes. Para evitar que elas virem mercadoria, as escolas americanas têm um plano de emergência para mantê-las no país – a maioria é orientada a buscar a casa de amigos ou a igreja local.

“É como um procedimento padrão, como em caso de incêndio. Caso os pais sejam deportados, todos sabem o que devem fazer, para onde têm de ir”, disse Brewster. Esse tipo de caso é mais comum do que se imagina. Em San Diego, Julián Flores, de 7 anos, envolveu-se em uma briga de escola. Mas, em vez de ser levado à direção do colégio, foi parar na polícia. Os agentes de imigração foram notificados e ele acabou nas mãos do SNDIF.

Desilusão

Os que conseguem sobreviver à pressão e às operações da imigração chegam aos 17 anos com um dilema: o que fazer após o ensino médio? Muitos são alunos brilhantes, dedicados, mas continuam ilegais e sem acesso à universidade. Após a formatura, a maioria abandona os estudos e aceita trabalhos dos mais humildes, limpando quartos de hotel, lavando pratos ou servindo mesas de bar.

A história de Leslie Muñoz, hoje com 20 anos, teve um fim que já se tornou regra na região. Em 2007, ao voltar para casa, não encontrou seus pais, que haviam sido deportados para o México. Aos 16 anos, ela teve de abandonar a escola e foi obrigada a se emancipar para cuidar dos três irmãos mais novos.

“Existem centenas de histórias semelhantes. Estamos cuidando de casos de soldados de origem hispânica que estão lutando no Afeganistão enquanto seus pais estão sendo presos e deportados aqui”, diz Pedro Ríos, diretor do American Friends Service Committee, que ajuda imigrantes ilegais.

Uma das críticas mais duras de Ríos é em relação à militarização da fronteira. “Isso só piorou a situação. Muitos, que antes voltavam regularmente para o México, agora ficam definitivamente nos EUA. Aqui, viram alvo fácil da extrema direita, principalmente do Minuteman.”

Fonte: IHU Online

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