Conjuntura da Semana. A multidão na ágora reinventa a política

A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU.   A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT – com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Sumário:

O momento político é da multidão
Nem políticos, nem banqueiros
O que pedem os Indignados?
Tahrir e Puerta del Sol. Aproximações e diferenças

O recado da Ágora. Reinventar a política
Esgotamento da política tradicional
Basta à esquerda que assumiu a agenda da direita
Multidão. O poder constituinte
A força do “anonimato”
A multidão em frases
Conjuntura da Semana em frases

Eis a análise.

Tahrir (Egito), Puerta del Sol (Madri), Syntagma (Grécia). A “multidão” – conceito negriniano – se move. Também na Itália, em Portugal, em Londres.  Os Indignados, os invisíveis, os anonymous, o indivíduo não governamental (ing) tomam as ruas e praças numa luta coletiva que tem em comum a radicalização da democracia. “Tomar a vida em nossas mãos”, é o grito que eclode nas ágoras dos grandes centros urbanos.

Hoje, quem move, impulsiona e dá vida às lutas radicalmente anticapitalistas já não são os partidos políticos e os sindicatos. É sobretudo a multidão – sujeito social que se compõe a partir da multiplicidade de subjetividades e que age com base naquilo que as singularidades têm em comum e se articulam a partir das redes sociais.

É a mobilização dos sem futuro por um futuro. É um grito de basta. Um basta a precarização da vida, a mercadorização, a política irrelevante que nada decide, e quando decide, o faz a favor do mercado, das finanças. Nesse sentido, o recado dados pelos jovens, mas não apenas eles, nas praças de todo o mundo guarda o mesmo espírito do grito da juventude argentina insurreta em 2001: “Que se vayan todos!”

Intepretar o caráter e a natureza dos movimentos que ocupam as praças, tomando como referência o simbolismo de Puerta del Sol, com suas implicações e significações é objetivo dessa conjuntura semanal.

O momento político é da multidão

“Nem políticos, nem banqueiros”

A spanish revolution, o movimentou que tomou as praças e ruas em toda a Espanha e ficou conhecido como 15-M ou Puerta del Sol em referência à praça madrilena, começou com o convite para a manifestação do dia 15 de maio de 2011 (15-M), lançada por uma rede emergente chamada “Democracia Real Já”. O lema da convocatória foi: “Não somos mercadoria nas mãos de políticos e banqueiros. Democracia real já”. A manifestação foi realizada em mais de 60 localidades de toda a Espanha pelos vários núcleos do movimento e foi amplamente convocada através das redes sociais na internet, principalmente via Facebook e Twitter.

A manifestação foi feita uma semana antes das eleições municipais e regionais do dia 22 de maio com o objetivo de expressar a rejeição à democracia atual, ao bipartidarismo e à impossibilidade de opções que a ditadura dos mercados e instituições financeiras nos trouxe, destaca Raul Sánchez Cedillo da Universidad Nómada da Espanha e membro do Comitê de redação das revistas Multitudes.

As manifestações se expandiram rapidamente. “Semanas antes dessa data, o número de adesões e confirmações de presença virtual de algo que poderia ocorrer eram perceptíveis” diz Raul Sánchez. Às vésperas das eleições espanholas [22 de maio] praças encontravam-se ocupadas. Manifestações políticas e comícios são proibidos pela lei espanhola antes de eleições, para permitir que a população tenha um “dia de reflexão”.

Houve ameaças de que a praças, particularmente Puerta del Sol (Madri) e Praça da Catalunha (Barcelona), seriam desocupadas pela polícia. Os manifestantes mandaram avisar que não sairiam. Anunciaram que fariam, em respeito à lei, os chamados “gritos mudos”. Enormes protestos, em que a multidão permaneceria sem palavra alguma, um gesto – a mão sobre a boca – para expressar como se sentem, diante da “democracia”.

“É um movimento que cativa os que dele se aproximam”, testemunho o jesuíta Llorenç Puig. Segundo ele, “percebe-se o desejo de sair do beco sem saída do consumismo (um dos cartazes dizia: ‘Menos materialismo e mais humanismo’). Percebe-se espírito, apalpa-se esperança, respira-se humanismo. Fala-se nas assembleias, uma e outra vez, que esse movimento trata de, em primeiro lugar, ampliar a consciência e ganhar a dignidade”, afirma ele.

Dignidade é uma palavra chave do 15-M.  “Os indignados”, dessa forma também é conhecido o movimento, é uma referência ao ensaio Indignai-vos!, de Stéphane Hessel. A spanish revolution é “um grito de dignidade frente às narrações catastrofistas da crise, que afundaram o país no medo e seus cidadãos na impotência. Agora, as pessoas se sentem dignas. Não sabemos se mudaremos o país, nem se conseguiremos mudar as coisas, mas já mudou o fundamental: a relação com nós mesmos e com a nossa capacidade de tomar a vida em nossas mãos”, afirma Marina Garcés do coletivo espanhol Espai en Blanc em entrevista ao IHU.

O que pedem os Indignados?

O que querem os jovens de Puerta del Sol, da Praça Catalunha, agora reunidos no Parque de la Ciudadela? Segundo Raul Sánchez Cedillo, “A esta altura, nos encontramos diante de algo como uma imensa ‘lista de queixas’ coletadas em dezenas de assembleias feitas por toda a Espanha. É preciso somar ainda as produções das assembleias realizadas em outros lugares da Europa e do mundo, sobretudo na Grécia e na França. Ainda assim, é possível dizer que o movimento reúne:

a) propostas de radicalização democrática do sistema político e representativo, tais como: reforma da lei eleitoral contra o bipartidarismo; legislação específica contra a corrupção dos representantes eleitos; independência efetiva do sistema judicial a respeito dos partidos políticos;

b) propostas contra a privatização dos serviços públicos, do sistema de pensões e contra os cortes nas serviços sociais. Também reivindicam a universalidade do atendimento à saúde e educação. Além disso, há um número dramático de pessoas que estão perdendo suas casas porque não podem pagar as hipotecas imobiliárias que contraíram e isso precisa ser revisto;

c) propostas de controle democrático do sistema financeiro e exigência para que os bancos e as companhias de investimento devolvam o dinheiro público que foi dado a elas para que não falissem. E que esse dinheiro devolvido seja gasto com as questões sociais e investido para o bem da população”.

É profunda a desilusão com o mundo da política em toda e Europa – na Espanha, em Portugal, na Grécia, na Itália, na Inglaterra.  Particularmente na Espanha, o Partido Socialista Operário Espanhol – PSOE no poder é uma espécie clássica de uma esquerda que assumiu a agenda da direita, como afirma o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: “Os partidos de centro-esquerda estão sendo derrotados pelas urnas na Europa por não conseguirem se diferenciar da direita”. Segundo ele, “as políticas liberais foram fielmente postas em prática pelos próprios partidos de centro-esquerda a partir do momento em que chamada Terceira Via dominou a social-democracia europeia”.

Alguns afirmam que os jovens de Puerta del Sol foram os responsáveis pela derrota acachapante do PSOE para o PP, ainda mais à direita. As reformas, entretanto, introduzidas por Zapatero são dignas de qualquer agenda da direita. “O consentimento do governo socialista de Zapatero arruinou todo o seu capital político nesta subordinação completa aos grandes poderes financeiros e das corporações”, afirma Raul Sánchez Cedillo.

As praças tomadas atestam a falência da política, da democracia representativa. “Democracia Real Já”, pedem os manifestantes. Retornaremos a esse tema, central para a compreensão dos movimentos que eclodem em toda a Europa.

Tahrir e Puerta del Sol. Aproximações e diferenças

Onde Tahrir e Puerta del Sol se aproximam e se distanciam? Há semelhanças e diferenças entre as mega-manifestações e mobilizações recentes no Oriente Médio e na Espanha, Portugal e Grécia.

Na opinião de Raul Sánchez Cedillo, “há grandes similaridades, desde o uso das redes sociais até o acampamento em grandes praças, assim como a retórica da indignação ante um sistema político e social intolerável. Em qualquer caso, as referências à primavera árabe no movimento #15M são explícitas e não anedóticas.  Essa grande onda de manifestações nestes países tem contribuído para o despertar da população”.

Na opinião de Cristovam Buarque, porém, “o movimento árabe é o começo de um novo tempo democrático, já o movimento europeu é o fim de um tempo, um modelo exitoso, mas insatisfatório. Por isso, fala-se de Primavera no Egito e em Del Sol pode-se falar de Outono”, diz ele.

Segundo  Cristovam, “no espaço de poucas semanas, o mundo assiste manifestações sociais surpreendentemente parecidas em lugares muito diferentes. A mobilização na praça Tahrir, no Cairo, na praça Catalunha, em Barcelona, e na praça Del Sol, em Madrid. Os dois movimentos se parecem, sobretudo, pelo descontentamento com os políticos e partidos tradicionais. A partir daí tudo é diferente, nas causas e nas perspectivas. O movimento árabe é o começo de um novo tempo democrático. O movimento europeu é o fim de um tempo, um modelo exitoso, mas insatisfatório. Por isso, fala-se de Primavera no Egito; na Catalunha e em Del Sol pode-se falar de Outono”.

“A Primavera árabe tem como causa a falta de legitimidade de regimes que não permitem alternância no poder; baseados em partidos únicos ou quase-únicos; que construíram sistemas corruptos de promiscuidade entre os assuntos públicos e privados, com o enriquecimento das famílias no poder; mantendo sistemas econômicos que não conseguem diminuir o sofrimento da pobreza”, diz Cristovam.

“O Outono europeu, continua, acontece porque fizeram tudo o que os árabes agora estão descobrindo, mas o sistema se esgota. Acabou o casamento que há séculos permitiu a Europa unir democracia política com crescimento econômico e com justiça social. O crescimento econômico encontra-se impedido de continuar por limites ecológicos e já não gera mais emprego, sobretudo, para os jovens; os benefícios sociais estão se esgotando pelos limites fiscais que impedem a ampliação dos serviços públicos aos jovens de hoje”, afirma ele

Cristovam conclui, “a Primavera árabe é resultado da falta de legitimidade na política; o Outono europeu é conseqüência da falta de imaginação dos políticos. A motivação dos jovens árabes é política, a dos espanhóis é moral”.

Na opinião de Marina Garcés, “a relação é óbvia e consciente por parte de cada praça tomada desde um primeiro momento. Em Barcelona, assim como em outros lugares, áreas da Praça Catalunya foram marcadas explicitamente com nomes que articulam uma nova geografia centrada no vínculo desse gesto com as praças tomadas no norte da África, especialmente com a praça Tahrir”.

Segundo ela, “quando começou a tomada das praças na Tunísia e no Egito, os meios de comunicação europeus logo  entoaram a canção, repetida quase como um mantra: ‘Esses jovens querem desfrutar o que já temos, querem gozar da nossa democracia’. Mas muitos tinham a sensação contrária: esses jovens, perfeitamente informados, sabem muito bem o que têm e não querem a mesma coisa. Em sua luta pela democracia, dão um passo à frente, põem-se à nossa frente e estão nos mostrando que, embora a Europa não tenha governos ditatoriais, nossos sistemas políticos e econômicos também não são realmente democráticos. O movimento 15-M começou com uma convocatória de manifestação lançada pela plataforma ‘Democracia real já’. Que novos sentidos da palavra democracia nasceram e estão começando a ser experimentados com a onda de tomada de praças que entra na Europa de sul a norte?”, conclui perguntando.

Para além da indignação política, semelhanças se percebem ainda na forma como foram convocadas: à margem das instituições tradicionais, valendo-se das redes sociais. Emergiram da “força do anonimato” e lutam por democracia real. Ambas são resultantes da multidão – conceito negriniano – que se coloca em marcha.

O recado da Ágora. Reinventar a política

Esgotamento da política tradicional

As manifestações da Espanha à Grã-Bretanha, da Grécia à Itália, passando por Portugal, manifestam o esgotamento da  política tradicional. Há um que de 1968 nesses movimentos. A política se tornou irrelevante. É preciso mudar a política. A democracia representativa faliu. “Democracia real” pedem os indignados.  Segundo o sociólogo Giuseppe Cocco, “o recado desses movimentos é explícito: ‘que se vayan todos!’. Não acreditamos mais nas formas tradicionais de representação, partidárias e/ou sindicais”.

“Os jovens e os não tão jovens que protestam não são ‘apolíticos’ ou ‘antipolíticos’, como certa imprensa quer nos fazer acreditar, e sim pessoas profundamente politizadas que levaram a sério a promessa da democracia e que, por isso mesmo, se revoltam contra a falsa democracia”, destaca o sociólogo Atilio A. Boron.

As revoluções árabes em menor grau, simbolizadas por Tahrir,  mas, sobretudo Puerta del Sol e Praça Catalunha [Espanha], Praça do Rossio [Portugal], Aganaktismenoi [Grécia] e tambem em Roma, quando milhares de jovens tentaram ocupar o Parlamento depois do voto de confiança ao decadente sistema político institucional representado por Berlusconi;  Paris, com as greves metropolitanas realizadas contra os cortes na previdência; Londres, nas manifestações estudantis contra a privatização do ensino superior assemalham-se sob a perspectiva política com movimentos do sul.

Que se vayan todos! [Argentina]; OaxacaOutra Campanha e as Caracoles [México]; Sumak Kawsay [Países andinos]; Assembléia Popular [Brasil]  reverberam o esgotamento da política tal como está aí.

“Poderíamos dar uma resposta poética e dizer que estamos diante de uma dinâmica do Sul, Sol, Sal. O Sal do Mediterrâneo e de suas revoluções árabes é a referência de Sol, a Puerta del Sol em direção à Europa e reverbera na América do Sul”, diz Giuseppe Cocco.

Na opinião do filósofo Renato Janine Ribeiro, “a palavra certa não é o que se quer: é o que se deseja. Há a convicção de que se esgotou a maneira usual de fazer política usual. Por isso, muitos dos que vão às praças ibéricas não se importam com as eleições que houve na Espanha e haverá em Portugal. O resultado delas pode beneficiar os políticos conservadores. Mas os manifestantes não se batem por uma política menos ruim, com redução de danos, menos opressiva. Lutam por outra coisa”.

Segundo Renato Janine Ribeiro há algo de 68 nessas manifestações: “É um desejo de utopia. Surge sem causa ou, se há causas, não são suficientes para explicar a consequência. A primavera ibérica pode dar em nada. Mas mostra, pelo menos, que o melhor da energia da sociedade, pelo menos de tempos em tempos, anseia por algo que seja político, mas completamente diferente de ‘tudo o que está aí’”.

No Brasil, diz o filósofo, “o PT soube, por um tempo, captar essa energia. Isso terminou. Mas continua havendo, mundo afora, esse desejo, que nem os ecologistas conseguem absorver. Descartá-lo como ‘utópico’”, no mau sentido, é esquecer que só ele pode renovar a política. Acreditar que possa ser tomado pelos partidos existentes é uma ilusão. O fato é que, até hoje, essa energia trouxe resultados aquém dos esperados, mas além dos previstos”.

Na opinião do sociólogo político francês Marc Lazar, “o movimento dos ‘indignados’ apresenta carcaterísticas tradicionais e ao mesmo tempo aspectos inovadores, que têm um porte que vai além da Península Ibérica. Os espanhóis não são os únicos que protestam contra a deterioração da situação social. Há meses, a austeridade introduzida nos vários países europeus se confronta com uma resistência cada vez mais forte.O resultado é uma queda de popularidade dos chefes de Governo, desempenhos eleitorais negativos dos seus partidos ou das suas coalizões e greves e manifestações de grande porte, como por exemplo na Grécia, em Portugal e na Grã-Bretanha. O descontentamento se expressa, portanto, segundo modalidades bem conhecidas na democracia: insatisfação com os líderes no poder, reveses eleitorais, ações coletivas clássicas”.

Segundo Marc Lazar, “esses mileuristas (isto é, jovens que ganham mil euros por mês), como lhes definiu a romancista espanhola Espido Freire, expressam a sua raiva. Eles têm diplomas universitários, mas não encontram trabalho (na Espanha, um em cada dois jovens com menos de 30 anos não tem um emprego, e a taxa de desemprego é de 20%) ou são submetidos a uma longa situação de trabalho precário que incide sobre outros aspectos da sua vida, tais como a possibilidade de ter uma casa ou de começar uma família”.

A precariedade no mundo do trabalho chegou à Europa. Tem-se agora o “precatariado”. “Estamos diante de um ataque mortal ao sistema do Estado de bem-estar social em toda União Europeia”, diz Raul Sánchez Cedillo.

“Talvez seja o caso de lembrar que vemos um profundo hiato entre as opções eleitorais e as expectativas de mudança cada vez mais presentes nas massas europeias (já vimos cenas parecidas em Portugal e na Grécia). Este é o resultado da ausência de uma ‘terceira geração’ de partidos de esquerda”, afirma o filósofo Vladimir Safatle.

Em sua opinião, “a primeira geração foi marcada pela polaridade entre partidos sociais-democratas e partidos comunistas. A partir dos anos 1980, grandes partidos comunistas (como o italiano e o francês) entraram em colapso. Uma ‘onda rosa’ social-democrata invadiu a Europa com Tony Blair, Gerard Schroeder, Lionel Jospin e resultados sociais vergonhosamente pífios. Estes dois modelos de partidos esgotaram-se”.

“A segunda geração – continua – foi marcada pelos partidos verdes e por alguns partidos libertários que nasceram no  bojo das exigências emancipatórias de maio de 68. Hoje, os partidos verdes são, cada vez mais, partidos de centro que fornecem a roupagem ideológica para a nova aliança entre um sistema financeiro embalado pela ‘bolha verde’ e a má consciência de uma classe média que prefere não ouvir falar em conflito de classe. Dos partidos libertários, não sobrou sequer rastro”.

Falta, pois, conclui, “uma terceira geração de partidos ou agremiações de mobilização eleitoral capazes de dar representação política a uma massa disposta a lutar pela efetividade de princípios reguladores como igualdade e liberdade social. Liberdade que não seja bloqueada pela transformação do Estado em ambulatório de bancos falidos embalado pelo discurso do caráter inevitável do desmonte de sistemas elementares de seguridade social. Enquanto este passo em direção à institucionalização da revolta não for dado, giraremos em falso”.

O sociólogo francês Marc Lazar, vai na mesma direção: “Se as elites políticas e os partidos clássicos permanecerem surdos a esse grito, se se contentarem reforminhas de fachada, ao invés de fornecer respostas institucionais capazes de redesenhar a ágora moderna, e permitirem que se satisfaça essa profunda aspiração à participação, correrão o risco de decepcionar e de agravar ainda mais a crise da representação política”.

O filósofo Renato Janine Ribeiro, aponta que os novos valores para uma nova política já se encontram na praça –  que atenienses a chamavam de ágora, o lugar em que decidiam as questões de interesse comum, quase toda semana. Segundo ele, a praças ocupadas “é um voto de esperança numa vida coletiva melhor, mas é um avanço que exige romper com a política tradicional”.

Basta à esquerda que assumiu a agenda da direita

Os protestos e manifestações em toda a Europa, particularmente na Espanha e na Grécia é de desilusão completa com o mundo da política, com a via institucional, com os partidos políticos. As ocupações das praças denunciam a falência da esquerda institucional.

O que aconteceu à esquerda mundial que se apresentava como pretensamente moderna? Slavoj Zizek, já em 2003, olhando o que acontecia em toda a Europa afirmava que determinada esquerda se deixou fascinar pela democracia liberal. Em artigo reproduzido pelo CEPAT Informa n. 95, mar. 2003, Zizek dizia que “a nova esquerda da Terceira Via faz o trabalho para os liberais econômicos conservadores, desmontando o Estado de Bem-Estar, levando as privatizações até o fim etc. etc.”.

Zizek denunciava a rendição ao “pensamento único” propalado pelo capitalismo global, cuja ascensão “é apresentada como um destino contra o qual não se pode lutar – ou nos adaptamos a ele ou perderemos o passo da história e seremos esmagados. A única coisa que podemos fazer é tornar o capitalismo global o mais humano possível, lutar pelo ‘capitalismo global de face humana’”. A sua formulação cabal para o que via então: “A esquerda faz o que até mesmo a direita não foi capaz”.

No artigo de Zizek , o sociólogo volta a falar a mesma coisa: “No Reino Unido, a revolução thatcheriana foi, no seu tempo, caótica e impulsiva, marcada por contingências imprevisíveis”, porém, destaca Zizek, “foi Tony Blair quem conseguiu institucionalizá-la ou, nas palavras de Hegel, transformar (o que num primeiro momento parecia) uma contingência, um acidente histórico, numa necessidade. Thatcher não era thatcherista, era simplesmente ela mesma. Foi Blair (mais que o primeiro-ministro John Major) quem realmente deu forma ao thatcherismo”.

O mesmo com matizes diferenciadas  aconteceu nos EUA. Foi Clinton – um democrata com ares de esquerda – quem legitimou a ‘Era Reagan’, ou seja, o ‘Consenso de Washington’ e os valores neoliberais. O mesmo aconteceu com Miterrand na França, com Massimo D’Alema na Itália, para ficar em poucos países. O Norte do hemisfério foi engolido pelo ‘pensamento único’. Mas quem o legitimou, sobretudo, foi aqueles que se diziam de esquerda.

O mesmo, de certa forma, aconteceu no Brasil. Quem abriu as portas para a entrada do neoliberalismo no país foi primeiro Collor e depois Fernando Henrique Cardoso, porém o PT não rompeu com a sua dinâmica em sua completude.  A chegada do PT ao Estado não significou rupturas com o status quo anterior.

Poder-se-ia afirmar que o PT no poder desconstruiu a hegemonia que anteriormente conquistou na sociedade – no sentido gramscianoLula no poder praticou uma “hegemonia às avessas”, lembra o sociólogo Francisco de Oliveira, ou seja, a classe dominante aceitou ceder aos dominados o discurso político, desde que os fundamentos da dominação que exerce não sejam questionados. O PT abandonou a utopia.

Multidão. O poder constituinte

A força do “anonimato”

“O momento político é da multidão” afirma Guiuseppe Cocco, professor da UFRJ. O 15-M é poder constituinte, diz Negri.

Segundo Cocco, esses movimentos que assistimos nos países árabes, na europa e também no Brasil, “indicam momentos potentíssimos de recomposição da multidão do trabalho imaterial. Nessas lutas, a fragmentação é transformada na cooperação entre singularidades. No fazer-se da multidão desenhado por essas lutas, o estado de exceção não é mais, de maneira nenhuma, aquele decretado pelo poder soberano, assim como diz a teologia política de Agamben”, diz ele .

O estado de exceção continua, “é a democracia dos muitos, a democracia radical que marcha na rua, nas assembleias e nas redes, na recusa da violência, que no caso árabe mostra uma incrível resistência ontológica mesmo diante da repressão mais brutal. A vida nua dos pobres (a multidão árabe, os precários espanhóis, os favelados cariocas, os índios do Xingu) aparece como potência de criação e não como suspensão da política”.

A multidão que se coloca em marcha é um conceito de Antonio Negri, abordado em sua obra Império: “O capital quer transformar a multidão numa unidade orgânica, assim como o Estado quer transformá-la num povo (…) Quando é aprisionada e transformada no corpo do capital global, a carne da multidão vê-se ao mesmo tempo no interior dos processos da globalização capitalista e contra eles. A produção biopolítica da multidão tende a mobilizar o que compartilha em comum e o que produz em comum contra o poder imperial do capital global. Com o tempo, desenvolverá sua forma produtiva baseada no comum, a multidão pode mover-se pelo Império e sair do outro lado, para se expressar autonomamente e governar a si mesma”, destaca o autor.

O comum [o que se quer] é a base da multidão [multiplicidade de subjetividades]. “A multidão é composta de um conjunto de singularidades – e com singularidades queremos nos referir aqui a um sujeito social cuja diferença não pode ser reduzida à uniformidade, uma diferença que se mantém diferente”, afirma Hardt e Negri na obra Multidão (2005: 139). A multidão designa um sujeito social ativo, que age com base naquilo que as singularidades têm em comum, “é um sujeito social internamente diferente e múltiplo cuja constituição e ação não se baseiam na identidade ou unidade (nem muito menos na indiferença), mas naquilo que tem em comum” (2005: 140).  Embora se mantenha múltipla e internamente diferente, a multidão é capaz de agir em comum. É nesse sentido que os autores defendem a idéia de que “a multidão é um conceito de classe” (2005: 143).

A força da multidão reside, por mais paradoxal que possa parecer, na “força do anonimato”. Força do anonimato “é o nome de uma subjetividade política que escapa à lógica dos nomes: nomes da representação política, identidades que nos separam entre maiorias e minorias, e marcas que fazem de cada uma das nossas vidas uma empresa de valorização capitalista. A força do anonimato é a que tem um nós que desocupa, portanto, nomes, identidades e marcas. É um nós que não tem uma resposta fácil para o ‘quem?’ que o interroga, mas que, com sua presença, desarticula a própria interrogação do poder. Dito dessa forma, poderia parecer que a força do anonimato é algo quase sobrenatural, alheio ao dia a dia da vida social e política. Pensamos que é exatamente o contrário: a força do anonimato é a que cada um de nós tem quando faz de sua vida um problema comum”, afirma Marina Garcés.

A singularidade/subjetividade dos indignados, invisíveis, do indivíduo não governamental [ing], dos anonymous – transformam-se em multidão quando passam a agir em comum por uma causa comum.

Puerto del Sol e Catalunha. A multidão em frases

“Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir”

“Nos tiraram a justiça, e nos deixaram a lei”

“Não há pão para tanto chouriço”

“A consciência é gratuita”

“ O Planeta não é um mercado, é um lugar sagrado”

“No nos mire, únete!”

“Sonho, logo existo”

“Erro. Sistema reiniciando”

“Não é crise, é capitalismo”

“Este é o nosso tempo, esse é o nosso momento, nós decidimos”

“Começa fazendo o necessário, depois o que é possível e de repente está fazendo o impossível”

“Desculpem os transtornos, estamos construindo algo melhor”

“Podemos ir embora, mas já sabemos o caminho de volta”

Twitter: @acampadasol

Fonte: IHU Online

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