Quartéis-generais de produção científica

Criados há apenas três anos, institutos de desenvolvimento da ciência e da tecnologia apostam em pesquisas estratégicas para o progresso da sociedade brasileira.
Com foco no estreitamento entre sociedade e tecnologias de ponta, os institutos nacionais de tecnologia (INCTs), criados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em 2008, apresentam os primeiros resultados práticos de pesquisas avançadas em variadas áreas estratégicas do conhecimento. No Brasil, 122 desses centros respondem por pesquisas de alta vanguarda. As descobertas vão da medicina à engenharia, passando por biodiversidade, relações entre sociedade e internet e até estudos tectônicos. O trabalho dos cientistas é financiado por instituições diversas, federais e estaduais. No Distrito Federal, há duas unidades – a de estudos tectônicos e uma de nanobiotecnologia.

Como conta o professor Wagner Meira Júnior, do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o trabalho desenvolvido no INCT para a Web, que funciona em  Belo Horizonte, provocou um salto de produtividade na quantidade de artigos científicos publicados sobre o tema. Foi também definitivo para a criação de protótipos que enraizassem os conceitos dos algorítimos desenvolvidos – aí mora o grande atrativo dos projetos para as pessoas comuns, que não teriam paciência para se debruçar sobre os escritos científicos: “Houve preocupação maior no sentido de trazer a produção científica para a sociedade. Os protótipos são o mais próximo que temos de produtos, concretos, que poderiam chegar ao mercado.”

Nesse sentido, o INCT coloca sistematicamente no ar variações do Observatório da Web (observatorio.inweb.org.br), criado originalmente para as eleições do último ano. De olho na maior participação da população brasileira nas discussões on-line, o endereço acompanha essa nova realidade, diagnosticando movimentos de opinião pública a partir de comentários em mídias sociais, como o Twitter. O que se fala na internet, em língua portuguesa, sobre política, futebol e saúde pública já foi objeto do Observatório desenvolvido a partir das pesquisas do INCT. “O mais recente é o Observatório da Dengue, que explora as correlações entre a movimentação nas redes sociais e a incidência da doença.”

A criação de protótipos como os observatórios também leva a desdobramentos mais concretos, conforme Meira. “Alguns pesquisadores do INCT acabaram criando duas startups (empresas de tecnologia em fase inicial), com produtos on-line. Uma delas é a Zunnite, focada em literatura, que faz recomendações de bons livros, e a outra é a Nhemu, um site que trabalha com comparações de preços de produtos”, conta. A Nhemu lida com conceitos de web 3.0, apontada por muitos com a próxima fronteira da internet. Vai além da atual web 2.0 (focada em colaboração) e se concentra em buscas mais inteligentes, também chamada de web semântica. Os recursos do INCT para a web somam R$ 3 milhões, entre verbas estaduais e federais.

No caso do INCT de medicina molecular, o valor aprovado pelo CNPq e repassado às pesquisas é de R$ 7,2 milhões. Desse total, R$ 5 milhões foram empregados na aquisição de um poderoso equipamento para tomografia por emissão de pósitrons e tomografia computadorizada (Pet/CT, na sigla em inglês). Instalado no centro de imagem molecular da Faculdade de Medicina da UFMG, o aparelho é essencial às pesquisas que pretendem trazer avanços para pacientes de Alzheimer e câncer. “Do jeito como está configurado, é o melhor equipamento da América Latina”, diz o professor Marco Aurélio Romano Silva, coordenador do instituto.

O Pet/CT é uma máquina impressionante, com opcionais avançados, como o sistema Time of Light, que reduz a dose de radioatividade para 30% do total, assegurando resultados até melhores, segundo o professor. “Tem a vantagem de submeter o paciente a uma radiação menos danosa.” O equipamento identifica o metabolismo das células. Pacientes com Alzheimer têm, no cérebro, regiões com pouca atividade metabólica. “Os tumores são o contrário: as células têm hiperatividade”, explica Marco Aurélio. As primeiras análises das pesquisas, realizadas com pacientes que vêm dos próprios laboratórios do Hospital das Clínicas da UFMG, ficam prontas no fim do ano. A equipe de especialistas deve usar o aparelho para realizar vários subprojetos do INCT, segundo Romano. “Vamos tentar ver se a tecnologia tem boa relação custo-benefício para ser implementada pelo SUS. No caso do Alzheimer, tentaremos identificar regiões do cérebro e correlacionar dados genéticos e clínicos na pesquisa.”
(Correio Braziliense)

Deixe uma resposta

Protected by WP Anti Spam