Refletindo sobre Cultura e Identidade na Mobilidade Humana

Por Maritcheli Vieira

          Segundo Martín-Barbero (2006), a pouco tempo atrás, falar de identidade era falar de raízes, ou seja, costumes e territórios, de tempo e de memória, simbolicamente densa. Hoje, diferentemente disso, falar de identidade significa falar das migrações e das mobilidades, das redes, dos fluxos, da instantaneidade e da fluidez. É basicamente, conforme antropólogos ingleses, tratar de raízes móveis, ou, melhor, de raízes em constante movimento (MARTÍN-BARBERO, 2006, p. 61).

          Para Sobrinho, Sirianni e Piffer (2014) o mundo apresenta migrações transnacionais ou transmigrações, que podem ser conceituadas como um processo que migrantes constroem laços e ligações tanto com o país de origem quanto com o de chegada, ou seja, entre diferentes diásporas. Apesar disso, os autores comentam que deve-se parar de considerar que os fluxos migratórios possuem apenas um local de origem e um de destino.

            Com as possibilidades da globalização, o aprimoramento dos meios de comunicação e a capacidade de mobilidade em pouco tempo, o migrante apresenta uma característica transnacional. Ele pode muito bem possuir locais de partida para além do seu país de origem, e assim, pode possuir futuros pontos de destino (SOBRINHO; SIRIANNI; PIFFER, 2014).

            Essas pessoas que migram, espalham-se pelo globo motivadas pela necessidade econômica, impactando tanto o país de origem quando o de destino (WOODWARD, 2012). Assim, entende-se que a migração internacional faz parte de uma revolução transnacional que está remodelando a sociedade e a política do mundo (CASTLES; MILLER, 1993 apud WOODWARD, 2012). Dessa forma, conforme Woodward (2012); e Castles e Miller (1993), percebe-se que as pessoas migram para outros países para progredirem economicamente e que essa dispersão modifica a sociedade e a política mundial.

            A partir de Martín-Barbero (2006), falar sobre identidade tem total relação em trazer questões de migrações e mobilidades, por ambas estarem vinculadas a características mutáveis e fluidas. Mas, entende-se que ao falar de identidade e migração também é importante trazer questões de cultura já que, levando em consideração Sobrinho, Sirianni e Piffer (2014), os migrantes constroem ligações com diferentes locais, com diferentes culturas e costumes. Não só isso, mas Cuche (2002) entende que os conceitos de cultura e identidade são relacionados entre si.

 Identidade e Cultura: conceitos e principais características

          Nesta reflexão, entende-se identidade e cultura como construções sociais, caracterizadas por serem mutáveis e fluidas, sempre em constante transformação. Segundo Cuche (2002),

“(…) cultura pode existir sem consciência de identidade, ao passo que as estratégias de identidade podem manipular e até modificar uma cultura que não terá então quase nada em comum com o que ela era anteriormente. A cultura depende em grande parte de processos inconscientes. A identidade remete a uma norma de vinculação, necessariamente consciente, baseada em oposições simbólicas”. (CUCHE, 2002, p.176)

            Assim, entende-se cultura como processos inconscientes, em que, por exemplo, a pessoa já nasce vinculada àqueles costumes e hábitos. Já a identidade é uma vinculação consciente, em que a pessoa sabe e escolheu fazer parte. Cuche (2002) ainda diz que as identidades podem modificar e moldar as culturas ao longo do tempo. O autor também traz que participar de uma cultura não faz com que uma pessoa tenha uma certa identidade. Deve-se entender que identidade e cultura estão em constante relação, mas, uma não caracteriza e engloba totalmente a outra.

“Participar de uma certa cultura particular não implica automaticamente ter certa identidade particular. Identidade etno-cultural usa a cultura, mas raramente toda a cultura. Uma mesma cultura pode ser instrumentalizada de modo diferente e até oposto nas diversas estratégias de identificação” (CUCHE, 2002, p.201).

          Para reforçar, Grimson (2010) apresenta que a cultura se refere a práticas, crenças e significados rotineiros; e identidade como sentimento de pertencer ao grupo. Mas, além disso, o autor também entende que a cultura nem sempre coincide com a identidade, ou seja, dentro de um grupo social em que todos se sentem fazer parte, não há necessariamente uma homogeneidade cultural. Segundo ele, “las fronteras de la cultura no siempre coinciden con las fronteras de la identidad. Es decir, dentro de un grupo social del cual todos sus miembros se sienten parte, no necesariamente hay homogeneidade cultural” (GRIMSON, 2010, p.03).

            A partir do explanado, percebe-se que Cuche (2002) e Grimson (2010) utilizam de uma perspectiva semelhante em relação aos conceitos apresentados, ao acreditarem que não há necessariamente uma única forma de identidade dentro de um grupo social e que também dentro de um grupo, em que várias pessoas possuem uma identidade, não necessariamente terá uma única cultura. É perceptível o quanto esses conceitos são complexos, por terem características fluidas e por encontrarem-se, segundo Cuche (2002), em “estreita relação”.

            Além disso, segundo Cuche (2002), a identidade utiliza da dicotomia nós/eles, baseada na diferença cultural, sendo, tanto includente, por identificar os membros do grupo que são até um certo ponto idênticos, quanto excludente, por distinguir os membros de um grupo dos de outro grupo, sob um mesmo ponto de vista.

Identidade e Cultura no âmbito das migrações

          Conforme discutido, entende-se que pessoas migram para outros países para poderem progredir economicamente e que essa dispersão modifica a sociedade e a política mundial. Em relação a essas modificações, pode-se trazer a questão da formação de comunidades e culturas diversificadas dentro de uma sociedade. Martín-Barbero (2006) entende que a globalização, para além de maior circulação de produtos diversos, colabora para que haja “uma rearticulação das relações entre culturas e entre países, mediante uma descentralização que concentra o poder econômico e uma desterritorialização que hibridiza as culturas” (MARTÍN-BARBERO, 2006, p.64).

          Referindo-se a essas questões de hibridização de culturas, Grimson (2011) apresenta que as dimensões culturais dos processos migratórios foram estudados apenas nas últimas décadas, havendo uma ausência de preocupação nas questões de cultura nos estudos clássicos, em que afirmavam que quando as pessoas viajam levam consigo uma “bagagem cultural”. É importante afirmar que, segundo o autor, é um equívoco pensar que os migrantes se movem com suas culturas, pois sempre há trocas e reformulações.

“Ciertamente, la lengua primera es un hecho decisivo en la constitución del ser humano. Pero actualmente se reconoce el riesgo de creer que las personas se mueven con su cultura. Como la cultura no se porta en la sangre, como la cultura está vinculada a contextos sociales específicos y a desigualdades de poder históricas, cualquier definición que utilicemos de «cultura» debe implicar necesariamente sus procesos de cambio. Cuando cambian los contextos, las culturas no pueden permanecer inmunes” (GRIMSON, 2011, p. 37).

          A partir das ideias de Grimson (2011), os migrantes não se movem com as suas culturas intactas, pelo motivo de que elas são ligadas a contextos sociais, sendo que quando esses mudam, elas também não permanecem as mesmas. Então, remetendo as ideias de Sobrinho, Sirianni e Piffer (2014), em que afirmam que os migrantes não possuem apenas um país de partida e chegada; e as ideias de Grimson (2011) de que há processos de mudanças conforme os contextos sociais, entende-se que as culturas encontram-se em constantes transformações havendo, segundo Martín-Barbero (2006), uma hibridização cultural. Hall (1997), ainda diz que essas “alternativas hibridas” são sínteses de elementos de mais de uma cultura, que ocorrem nas sociedades interculturais.

          Essa hibridização, formada por complexas relações interculturais, segundo Cogo (2006), colabora na formação, por migrantes, de múltiplas e fluídas identidades, fundamentadas tanto na sociedade de origem quanto nas de chegada. Em relação a isso, a autora também traz uma ideia de “síntese” de elementos de mais de uma identidade, quando diz que “alguns migrantes identificam-se mais com uma sociedade do que com a outra, a maioria parece desenvolver várias identidades, relacionando-se simultaneamente com mais de uma nação” (COGO, 2006, p.14).

          Assim, a partir dos autores discutidos, compreende-se que os migrantes não carregam as suas culturas como se fossem “bagagens”. Mas sim, a partir de cada chegada em lugares diferentes, as culturas são transformadas e reavaliadas conforme a situação e trocas sociais. As identidades também são fluídas e transformam-se conforme as identificações com as nações e lugares de contato, sendo elas relacionadas de forma simultânea com vários lugares.

          Outra questão que se pode trazer para discussão, relacionado às migrações, é a perspectiva de Cuche (2002), em que entende que a identificação pode ser utilizada para afirmar ou até mesmo impor uma identidade, que é sempre uma negociação entre a auto-identidade, definida por si mesmo, e a hetero-identidade, que é definida pelos outros. O autor traz aqui que a auto-identidade terá legitimidade dependendo da situação relacional que se encontra, ou seja, a relação de forças simbólicas entre os grupos que estão em contato. Quando há uma dominação, a hetero-identidade é caracterizada pela estigmatização dos grupos minoritários, trazendo valores negativos.

            A partir da questão de dominação de grupos minoritários, pode-se trazer a estigmatização de migrantes, pelo grupo pertencente ao “lugar de chegada” desses migrantes. Essas minorias são enxergadas, segundo Cuche (2002), como pertencentes de uma identidade negativa, vergonhosa e até mesmo rejeitada, trazendo uma tentativa e vontade de eliminação. Dessa forma, como o autor traz na sua obra, a “identidade é então o que está em jogo nas lutas sociais” (CUCHE, 2002, p.185), por nem todos terem o mesmo grau de poder de identificação que está ligado a posição no sistema de relações sociais.

            Cogo e Badet (2013) trazem em seu trabalho que nas migrações da década de 1810, o migrante “ideal” era associado ao branco e europeu que vinha para trabalhar e garantir o que o Brasil precisava. Os “indesejados” eram os grupos de refugiados, deficientes físicos, ciganos, ativistas políticos, velhos, comunistas e os condenados criminalmente. Com a tese do “branqueamento” da população brasileira, sustentou-se o debate sobre a necessidade de assimilação e nacionalização dos migrantes europeus. Assim, por um lado, o “branqueamento” dos brasileiros enxergava os migrantes europeus como parte de um processo de miscigenação, e por outro, havia uma expectativa de integração dos mesmos para a cultura nacional através do “embrasileiramento”.

 “O imaginário nacionalista, obsessivamente apegado a um sentido étnico de formação nacional, ajudou a criar não só outras formas de exclusão por graus de assimilabilidade, privilegiando migrantes de comprovada latinidade, como reafirmou os preceitos racialistas de desqualificação dos nativos da Ásia e da África[…]” (COGO; BADET, 2013, p.23)

            Parece que esse “imaginário nacionalista” que Cogo e Badet (2013) apresentam é relacionado apenas ao passado histórico do Brasil, mas as autoras também comentam que “atualmente um contingente de pessoas cuja visibilidade e interesse precisam ser constantemente negociadas por representarem exatamente as etnias indesejadas historicamente para povoar o país” (COGO; BADET, 2013, p.24).

            Dessa forma, a partir das autoras, percebe-se que o Estado influencia na exclusão e estigmatização dos grupos minoritários, como dos migrantes africanos, por exemplo. Cuche (2002) também levanta essa questão de que Estado-Nação tende a simplificar a uma uni identificação, ou seja, reconhecer apenas uma identidade cultural como nacional. Com isso, percebe-se que a ideologia nacionalista é de exclusão das diferenças culturais, tendo como lógica a “purificação étnica”.

          Assim, conforme Cuche (2002), com o Estado legitimando uma única identidade, os migrantes têm suas identidades negadas ou desvalorizadas, trazendo a dicotomia de nós/eles. Essa ação do Estado reforça, colabora e legitima para que a sociedade seja preconceituosa e excludente sobre as minorias. O mesmo autor ainda frisa que o esforço das minorias não é relacionada a se reapropriar de uma identidade do grupo dominante, mas sim se apropriar de meios e definir a sua identidade conforme os seus próprios critérios, sendo enxergada positiva e não negativa.

          Appadurai (2009) traz em sua obra o conceito de incerteza social que é “ligada à realidade de que os atuais grupos étnicos contam-se às centenas de milhares e de que seus movimentos, misturas, estilos culturais e representações na mídia criam profundas dúvidas sobre quem exatamente faz parte de “nós” e quem está entre “eles” (APPADURAI, 2009, p.11). Dessa forma, a partir de Appadurai (2009), percebe-se que o mundo está vivendo uma constante incerteza social, em que fica cada vez mais difícil distinguir o nós/eles/, ou seja, saber quem faz parte de um grupo social e quem faz parte de outro, analisando as práticas culturais e levando em consideração suas identidades. E essa questão de dificuldade e “incerteza” de saber quem faz parte, por haver movimentos e misturas, dificultando a existência de uma uni identidade, traz descontentamento dos grupos dominantes.

          A globalização e movimentos migratórios colaboram para que haja cada vez mais uma incerteza social, dificultando para os grupos culturais se distinguem entre si e que formem um “identidade pura”. Aqui, se faz interessante retomar Cuche (2002) e Grimson (2010), com as perspectivas de que não há uma única forma de identidade dentro de um grupo social e que também dentro de um grupo, em que várias pessoas possuem uma identidade, não terá uma única cultura. A identidade, segundo Cuche (2002), não é simples e pura, ela é uma construção social, a partir de trocas e vivências.

Para pensar

          A partir da reflexão, entende-se que a globalização e os movimentos migratórios colaboram para que haja cada vez mais uma incerteza social, dificultando a distinção entre os grupos culturais e a formação de uma única identidade. As identidades, como as próprias migrações, são móveis, fluídas e instantâneas. Mas, ao falar de identidades e migração também é importante relacionar com cultura, já que os migrantes constroem ligações com diferentes locais, com distintas culturas e costumes. Os movimentos migratórios, não têm apenas um único local de partida e de chegada, mas sim há diversas e diferentes diásporas.

            É importante retomar que a legitimidade de uma identidade pode colaborar para a estigmatização de migrantes, pelo grupo pertencente do “lugar de chegada”. Essas minorias são enxergadas como identidades negativas, vergonhosas e rejeitadas, trazendo uma tentativa e vontade de eliminação. A estigmatização pode ser até mesmo legitimada pelo próprio Estado, que tende a simplificar a reconhecer apenas uma identidade cultural como nacional. A ideologia nacionalista é de exclusão das diferenças culturais, tendo como lógica a “purificação étnica”.

            Percebe-se que esse imaginário nacionalista excludente, pode ser relacionado a própria história do próprio Brasil, em que as etnias indesejadas historicamente são equivalentes a algumas de hoje, um exemplo são os migrantes africanos. Com o Estado legitimando uma única identidade, os migrantes têm sua identidade negada ou desvalorizada, por uma sociedade preconceituosa e excludente com as minorias.

          Com essa reflexão, entende-se que estamos vivendo uma rearticulação das relações entre culturas e países, com uma descentralização que concentra o poder econômico e uma desterritorialização que hibridiza e mistura as culturas, havendo trocas, sínteses e reformulações. Os migrantes não carregam as suas culturas como se fossem “bagagens”, mas sim reformulam e mudam a partir dos contextos sociais. A partir de cada chegada em lugares diferentes, a cultura se transforma e é reavaliada conforme a situação e trocas sociais.

Referências Bibliográficas

APPADURAI, Arjun.  O medo do pequeno número: Ensaio sobre a geografia da raiva. São Paulo, Iluminuras: Itaú Cultural, 2009.

COGO, Denise. Mídia, interculturalidade e migrações contemporâneas. Rio de Janeiro: E-papers; Brasília, DF: CSEM, 2006.

COGO, Denise; BADET, Maria. Guia das Migrações Transnacionais e Diversidade Cultural para Comunicadores: Migrantes no Brasil. Bellaterra: Instituto Humanitas – Unisinos; Instituto de la Comunicación de la UAB, 2013.

CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, Edusc, 2002.

GRIMSON, Alejandro. Cultura, identidad: dos nociones distintas. In:Social Identities, vol. 16, nº 1, January 2010. (p. 63-79).

__________________. Doce equívocos sobre las migraciones. Nueva Sociedad, n. 233, mai-jun. 2011.

HALL, Stuart, (1997). A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções de nosso tempo. Educação & Realidade, v. 22, nº 2, p. 15-46.

MARTÍN-BARBERO, Jésus. Tecnicidades, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século. In: MORAES, Denis de. (Org.). Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006, p.51-79.

SILVA, Tomaz Tadeu da. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais / Tomaz Tadeu da Silva (org). Stuart Hall, Kathryn Woodward. 11. ed – Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

SOBRINHO, Liton; SIRIANNI, Guido; PIFFER, Carla. Migrações Transnacionais e Multiculturalismo: Um desafio para a União Européia. Revista Novos Estudos Jurídicos, v.19, nº 04, 2014, p. 1159 – 1184.

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