Compilado de autores para começar entender os processos comunicacionais no cenário latino-americano

Foto: Felicia Buitenwerf / Unsplash

Texto livre por Milena Silocchi

A comunicação é um campo, primeiramente, primordial para as sociedades. Ela, em sua dimensão, possui complexidades a ser estudada, já que abrange diversos campos e infinitas possibilidades de investigações. Para isso, em meio a essa amplitude de meios, filósofos, sociólogos e estudiosos de até mesmo outras áreas buscam em suas pesquisas entender suas particularidades, funcionamento e impactos possíveis para um indivíduo ou coletivo.

De acordo com o professor de Ciências da Comunicação na Unisinos, Pedro Gilberto Gomes, “O mundo das comunicações sociais na sociedade contemporânea é vasto e complexo, tornando a comunicação massiva objeto de discussão e estudo” (2004). A afirmação do autor parte da premissa de que para compreender este campo, é preciso uma análise aprofundada da história sobre a realidade social.

Para pensar nos processos comunicacionais, o professor e doutor Alberto Efendy Maldonado Gómez de la Torre parte da ideia de que a comunicação deu-se a diversas transformações. Isto é, como definido por ele mesmo, “são resultado histórico de uma prolongada sucessão de estados e mudanças” (2009, p.2). Elas podem ser de aspecto econômico/político, próprias da estrutura capitalista e da transformação da espécie. Além disso, define a comunicação como dimensão central e crucial na vida. 

O mesmo autor entende que todo conhecimento obtido parte de saberes milenares de outros povos antigos, que hoje são peças fundamentais na construção de conhecimento e da constituição da ciência no mundo. Esse campo científico só existe devido a herança cultural, de um longo período de criação de teorias, lógicas e experiências de que a sociedade foi se nutrindo.

No pensamento do logocentrismo europeu, possuía-se a ideia de que os conhecimentos racionais eram produzidos por meio da linguagem. Contudo, ela não pode ser vista como única, pois há diversas formas de se comunicar. Pessoas surdas, por exemplo, utilizam o corpo como um recurso linguístico que produz sentidos através dos sinais. 

Assim, a espécie humana foi capaz de fabricar e estruturar seus ethos, ou seja, modos de vida sofisticados quando o assunto é comunicar-se. E este fator foi articulado com o ampliamento da tecnologia. Essas evoluções possibilitaram a criação de sistemas capazes de expandir a comunicação (televisão, internet, rádio, cinema, fotografia). 

Para exemplificar, o rádio no século XX pode ser visto como a internet de hoje. Era por meio desse veículo que as pessoas se informavam até mesmo sobre as condições do tempo para plantio. Isso porque muitas dessas pessoas viviam no campo. Pode-se dizer que o meio contribuiu para a alfabetização como também mantinha a sociedade nutrida de informações. Assim, criava simbologias, isto é, estabelecia vínculos com as pessoas e passava a noção de brasilidade, uma vez que alcançava todo o território nacional.

O alcance que a informação tomou com os avanços tecnológicos, sendo rápida e imediata, capaz de ultrapassar barreiras demográficas, é um dos benefícios. No texto “A comunicação como problema”, de Paulo Serra, o termo “aldeia global”, exemplifica essa sensação de estarmos conectados, a partir da possibilidade que a internet proporcionou dessa aproximação do mundo, encurtando distâncias e todo o planeta sobre os mesmos problemas. Mas, também nos faz refletir sobre o papel da comunicação e revela uma importância significativa do seu estudo.

O mesmo acontece com a própria concepção de “receptor”. Termo este que possui mais de uma significação, conforme a esfera que está inserida, podendo ser em questões biológicas, políticas, históricas, semióticas, entre outras. Esses “receptores” também mudaram a forma como consomem conteúdos, saindo da exclusividade dos meios tradicionais, comerciais e industriais. 

Hoje, vemos a ascensão das redes alternativas de informação, como o caso dos veículos independentes e como eles possibilitam uma mudança cultural profunda. Como um processo natural, pessoas tendem a se fidelizar com aquilo que identificam-se, e por isso a mídia precisa se encarregar dessas dimensões. Com os avanços, fluxos migratórios e modos de pensar, novas figuras de cidadania surgem, e elas devem ser levadas em consideração. Isso porque permitem um conjunto de possibilidades e variáveis. A explosão de identidades, por exemplo, todas elas em algum momento irão se expressar nas narrativas.

Para isso, a mídia não pode se abster de fazer parte dessas formas sociais que vem crescendo, a fim de reconstruir pensamentos, visando ir contra a intolerância, principalmente. A mídia tem importante influência na construção de novas culturas. Uma sociedade midiatizada é mais propícia a se redescobrir, a se afastar de suas raízes/tradições, pois recebe grande fluxo de conteúdos de diversas localidades. Isso permite que a população conheça e adquira novos costumes e ideias.

Retomando para a linha de pensamento de Maldonado, há também a questão antropológica e do etnocentrismo estadunidense/europeu. Estes que designam os conhecimentos latinos-americanos como “inferiores”. A mesma ideia é apresentada pelo jornalista e escritor do livro “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Nele, os países que o compõem são também vistos como atrasados diante do seu fracasso econômico, assim desvalorizando outros campos, como o de produtores de saberes.

Para os que concebem a História como uma contenda, o atraso e a miséria da América Latina não são outra coisa senão o resultado de seu fracasso. Perdemos; outros ganharam. Mas aqueles que ganharam só puderam ganhar porque perdemos: a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já foi dito, a história do desenvolvimento do capitalismo mundial. Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos (GALEANO, p.11).

Na história latina americana, os países que o compõem foram marcados por lutas, modos de sobrevivência e brutal violência. Foi, de fato, um povo que desde seus primórdios foi condenado por causa de suas riquezas em minérios. Tanto, que trouxe a decadência do nordeste brasileiro. Como analisado pelo economista Celso Furtado e também retratado no livro citado acima, os engenhos de açúcar nesse local fizeram de uma terra saudável se tornar improdutiva. Sendo essa uma das desgraças da população nordestina, que agora trava mais uma batalha por não possuir o que comer. 

Em síntese, o autor esclarece que

Essas visões, linhas de pensamento e concepções  de programação afetam significativamente os  processos comunicacionais em todas as ordens; nos limites dos sistemas midiáticos comerciais, constata-se que estes vão perdendo força, penetrabilidade, reconhecimento e poder político. O  movimento dialético que a concepção etnocêntrica provoca tem possibilitado o aparecimento de múltiplas configurações de produção midiática, modos de fabricar mensagens e estruturas comunicacionais (2009, p.9).

Referências bibliográficas: 

FAXINA, Elson; BRENNAND, Evelaine et. al. Pensando com Celso Furtado (Série Realidade Brasileira). Brasília-Curitiba-São Paulo: TV Paraná Educativa; Escola Nacional Florestan Fernandes, 2012.

FORD, Aníbal. “Culturas populares e (meios de comunicação); Literatura e mídia; A tribo televisiva e o mercado da solidão”, p. 197-223.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre:L&PM, 2010.

GOMES, Pedro Gilberto. Retrospectiva dos estudos de comunicação, processos midiáticos em debate. 2ª edição, Editora Unisinos, 2004, p. 37-54.

MALDONADO, A. Efendy. Pensar os processos sociocomunicacionais em recepção na conjuntura latino-americana de transformação civilizadora. In: BONIN, J.; ROSARIO, N. Processualidades metodológicas: configurações transformadoras em comunicação, p. 87-103.

MALDONADO, A. Efendy: Pesquisa em comunicação: trilhas históricas, contextualização, pesquisa empírica e pesquisa teórica. p. 01- 16.

MARTÍN-BARBERO, Jesús. “Tecnicidades, identidades, alteridades: mudanças e opacidades da comunicação no novo século”, p. 51-79.
SERRA, Paulo. A comunicação como problema. Manual de Teoria da Comunicação, p.61 – 75.

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